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Índice do Artigo
Quando duas pessoas trabalham juntas, a parte mais delicada quase nunca é o trabalho em si. O ponto que mais gera ruído costuma ser dinheiro: quem paga o quê, quando entra, quando sai, e como fica a divisão.
Uma Mensagem pronta ajuda porque tira a conversa do improviso. Você coloca o combinado no papel, reduz mal-entendidos e cria um “registro” do que foi entendido pelos dois lados.
O objetivo aqui é te dar um caminho prático: como conversar, o que definir antes, e modelos de mensagens para diferentes situações comuns no Brasil.
Resumo em 60 segundos
- Defina primeiro o que é “ganho”: lucro, faturamento, comissão ou repasse por serviço.
- Liste todas as entradas (vendas, mensalidades, adiantamentos, taxas) e todas as saídas (insumos, frete, taxa de app, imposto, estorno).
- Escolha uma regra de divisão simples (percentual fixo, por função, por metas, por hora, por investimento).
- Combine quando acontece o repasse (semanal, quinzenal, mensal) e como será comprovado (planilha, extrato, relatório).
- Crie regras para exceções: cancelamentos, inadimplência, devoluções, prejuízo e caixa negativo.
- Defina quem decide o quê: compras, preço, promoções, contratação, e limite de gasto sem avisar.
- Registre por escrito e alinhe o próximo passo: teste por 30 dias e revisão do combinado.
O que “divisão de ganhos” significa na prática

Antes de falar em porcentagem, vale esclarecer a palavra “ganhos”. Em parceria, ela pode significar coisas bem diferentes, e é aí que nascem discussões.
Em muitos casos, uma pessoa fala “ganho” pensando em faturamento (tudo que entra). A outra entende como lucro (o que sobra depois de pagar tudo). Isso muda totalmente o resultado.
Na prática, comece definindo uma frase simples: “A divisão será sobre lucro líquido após custos X e Y” ou “A divisão será sobre comissão por venda paga”.
Defina a base do cálculo antes de falar em porcentagem
Uma porcentagem bonita não resolve se a base estiver confusa. O que evita conflito é um cálculo que qualquer um consiga repetir e chegar no mesmo número.
Para a maioria das parcerias pequenas, dois formatos costumam funcionar: divisão sobre lucro (entrada menos despesas) ou comissão por entrega (cada venda/serviço gera um repasse).
Exemplo realista: se você vende por aplicativo, a taxa do app e o frete podem variar. Se isso não estiver descrito, alguém vai sentir que “pagou mais” sem perceber.
O básico que precisa estar combinado por escrito
Não precisa começar com contrato longo. Mas existe um mínimo de itens que, se ficarem soltos, viram briga quando o dinheiro aperta.
Inclua: o que cada um faz, quais custos cada um assume, como fica a divisão, quando haverá repasse, e como lidar com cancelamentos, estornos e atraso de pagamento.
Também é importante definir o que acontece quando um lado quer sair: prazo de aviso, pagamento do que ficou pendente e como ficam clientes, estoque e ferramentas.
Mensagem pronta para alinhar divisão de ganhos em parceria
Abaixo está um modelo direto, educado e completo para iniciar o combinado sem soar agressivo. Ele serve para parceria em serviço, venda de produtos, eventos e projetos.
Modelo 1 — alinhamento inicial (neutro e objetivo)
“Oi, [nome]. Para a gente trabalhar com tranquilidade, queria deixar por escrito como vai funcionar a divisão e os repasses. Minha sugestão é: (1) a divisão será em cima de [lucro / comissão / faturamento], (2) custos considerados: [lista curta], (3) repasse em [data/frequência], com conferência por [planilha/extrato/relatório].
Também queria combinar como lidamos com cancelamentos, devoluções e atrasos: [regra simples]. Se você topar, a gente testa por 30 dias e revisa o que precisar. O que você ajustaria nessa proposta?”
Modelos rápidos por cenário comum
Nem toda parceria é igual. Às vezes um lado investe dinheiro e o outro executa. Às vezes ambos executam, mas em ritmos diferentes. Abaixo vão variações curtas para você adaptar.
Quando um lado investe e o outro executa
Modelo 2 — investimento + operação
“[Nome], para ficar justo e claro: você entra com [investimento/insumos] e eu entro com [trabalho/operação]. Proponho que as despesas sejam pagas primeiro e, do que sobrar, a divisão fique em [x% / y%]. Se em algum mês não sobrar, a gente registra e segue para o próximo. Fechamos repasse todo dia [x], com prestação de contas por [planilha].”
Quando cada um tem uma função diferente (vendas x produção)
Modelo 3 — funções complementares
“[Nome], para não dar confusão, queria formalizar assim: você fica responsável por [produção/execução] e eu por [vendas/atendimento]. A divisão dos resultados será em [x% / y%] sobre [lucro/valor recebido]. Custos fixos entram como [regra]. Repasse [semanal/quinzenal], sempre com os comprovantes organizados.”
Quando a parceria é por projeto com prazo (ex.: obra, evento, campanha)
Modelo 4 — por projeto
“[Nome], como esse trabalho é por projeto, proponho combinar por etapas: entrada de [sinal] para cobrir custos, e o restante dividido em [x% / y%] quando o cliente pagar. Se tiver gasto extra, só fazemos com aprovação dos dois. No final, fechamos um resumo com entradas e saídas para ninguém ficar na dúvida.”
Erros comuns que fazem a parceria “andar” e o dinheiro virar problema
Um erro frequente é misturar despesas pessoais com despesas da parceria. Quando isso acontece, o cálculo vira discussão e ninguém confia no número final.
Outro erro é não definir “quem aprova gasto”. Compras pequenas somam, e alguém sempre sente que “trabalhou para pagar custo” que nem sabia que existia.
Também dá problema quando o repasse é “quando der”. Na prática, isso cria ansiedade e abre espaço para interpretações. Data fixa e método de conferência resolvem muita coisa.
Regra de decisão prática para escolher o modelo de divisão
Se você está em dúvida entre vários formatos, use uma regra simples: o modelo precisa ser repetível e precisa refletir risco e esforço.
Quando o risco financeiro é alto (estoque, aluguel, equipamento), costuma fazer sentido separar “reembolso do custo” e depois dividir o que sobra. Quando o risco é baixo, comissão por entrega pode ser mais simples.
Exemplo: em serviços por diária, comissão por dia executado evita discussão de despesas. Em venda de produtos, divisão sobre lucro costuma ser mais justa, porque custo e taxa variam.
Como registrar sem burocracia e sem virar um “contrato infinito”
Você não precisa transformar tudo em papelada. Para parceria pequena, um texto bem escrito, com data, nomes e regras claras, já melhora muito a segurança do combinado.
O ponto é: o registro deve permitir que qualquer um explique a parceria para um terceiro em dois minutos. Se ficar cheio de exceções, provavelmente está confuso.
Se a parceria envolve valores altos, prazo longo, sociedade formal, marca, ou risco de dívida, vale procurar orientação profissional para escolher o melhor formato e reduzir problemas legais.
Quando chamar um profissional (e por quê isso evita prejuízo)
Existem situações em que “mensagem e planilha” não bastam. Não por falta de boa intenção, mas porque a estrutura jurídica e tributária pode mudar o jogo.
Se você vai abrir sociedade, definir retirada mensal, usar CNPJ de um para operação do outro, ou lidar com funcionários e contratos com terceiros, um contador e um advogado podem evitar escolhas que custam caro depois.
Também é importante quando alguém é MEI e a parceria parece sociedade. Em muitos casos, o formato precisa ser ajustado para não gerar irregularidade, desenquadramento ou cobrança inesperada.
Prevenção e manutenção: o “ritual” que mantém a parceria saudável
Parceria não quebra só por um número errado. Ela quebra por acúmulo de pequenas dúvidas que ninguém resolve, até virar desconfiança.
Crie um ritual curto: uma conferência semanal de 15 minutos e um fechamento mensal com três pontos: entradas, saídas e repasses. Com isso, problemas aparecem cedo, quando ainda são simples.
Também ajuda combinar uma revisão do acordo a cada 60 ou 90 dias. Ajuste de preço, mudança de função e sazonalidade fazem parte do trabalho, e o combinado precisa acompanhar.
Variações por contexto no Brasil: MEI, informal, interior e capital

No Brasil, o contexto muda muito. Em cidades menores, é comum a parceria funcionar “no fio do bigode”, mas isso aumenta o risco quando alguém adoece, precisa viajar ou quando o cliente atrasa.
Em capital e em vendas por aplicativo, taxas e estornos são mais frequentes. Isso pede regras mais explícitas, senão a discussão vira “quem ficou com a taxa” em toda venda.
Se um dos parceiros é MEI, cuidado para não transformar a parceria em sociedade na prática. As regras e limitações do MEI podem restringir participação societária e isso precisa ser respeitado para evitar problemas.
Checklist prático
- Definir se a divisão é sobre lucro, comissão ou valor recebido.
- Listar quais custos entram no cálculo (insumos, frete, taxas, impostos, ferramentas).
- Separar despesas pessoais das despesas do trabalho.
- Definir data e frequência de repasse.
- Escolher como será a conferência (planilha, extrato, relatório do app).
- Combinar regra para cancelamentos, devoluções e estornos.
- Definir limite de gasto sem aprovação do outro.
- Registrar quem faz o quê (produção, vendas, atendimento, entregas).
- Definir quem emite nota/recibo e como isso será organizado.
- Combinar o que acontece quando o caixa fica negativo.
- Definir como entra dinheiro de sinal/adiantamento.
- Combinar prazo e forma de saída da parceria.
- Marcar data de revisão do combinado (30/60/90 dias).
- Guardar comprovantes em uma pasta única (digital ou física).
Conclusão
Combinar divisão de ganhos é menos sobre “achar a porcentagem perfeita” e mais sobre criar um acordo que os dois consigam entender, repetir e revisar sem briga.
Quando o combinado é claro, a parceria ganha fôlego: decisões ficam mais rápidas, o caixa fica mais previsível e o relacionamento não depende de memória ou humor do dia.
Quais pontos você acha mais difíceis de combinar: custos, repasse ou cancelamentos? E na sua realidade, a parceria é mais sobre investimento, sobre trabalho, ou um pouco dos dois?
Perguntas Frequentes
É melhor dividir por porcentagem fixa ou por função?
Porcentagem fixa é mais simples, mas só funciona bem quando as funções e o esforço ficam estáveis. Se as tarefas mudam muito, dividir por função (ou por entrega) costuma evitar sensação de injustiça.
Dividir em cima do faturamento é uma boa ideia?
Pode ser, mas exige muito cuidado com custos. Se o negócio tem taxas variáveis, estornos e frete, dividir pelo faturamento pode fazer um lado “pagar a conta” sem perceber.
Como lidar com cancelamento e devolução sem brigar?
Defina uma regra antes: por exemplo, devolução desconta do repasse do mês seguinte, e taxas do app entram como custo do negócio. O importante é não decidir no calor do problema.
Precisa ter contrato em cartório?
Nem sempre. Para parcerias pequenas, um acordo escrito e assinado já ajuda muito. Se envolver valores altos, prazo longo ou risco jurídico, vale buscar orientação profissional sobre formalização adequada.
Como fazer repasse sem virar “caixa dois” na prática?
Organize entradas e saídas com comprovantes e um método fixo de conferência. Quando há emissão de nota/recibo, alinhe quem emite e como os pagamentos serão registrados para não gerar confusão.
Se uma pessoa trabalha mais em um mês, precisa mudar a divisão?
Depende do que foi combinado. Uma saída prática é prever um “modo extra”: horas adicionais ou entregas extras geram um valor acordado antes, sem reescrever toda a divisão.
O que fazer se o outro não quiser colocar nada por escrito?
Tente começar por um registro simples, sem juridiquês, focado em repasse e custos. Se ainda assim houver resistência, é um sinal de risco: parceria sem clareza costuma cobrar esse preço depois.
Referências úteis
Portal gov.br — regra do MEI sobre sócio e participação: gov.br — MEI e sócio
Planalto — Código Civil (sociedade e contrato): planalto.gov.br — Código Civil
Sebrae — conteúdo educativo sobre contrato social: sebrae.com.br — contrato social
